02:01 h. Lunes, 11 de Diciembre de 2017

Xornal Retrincos

Dos Indignados aos Ignorados. (Um conto de Verão)

Escritor e Poeta

Artur Alonso | 15 de Agosto de 2011

Lembro aquele velho conto Cherokee, no qual, um avô ensinava aos seu netos certo significado sobre a vida.Ele dizia aos cativos: “Uma grande luta esta sendo travada neste exato instante dentro de mim. E uma luta terrível entre dous lobos.

Lembro aquele velho conto Cherokee, no qual, um avô ensinava aos seu netos certo significado sobre a vida.
Ele dizia aos cativos: “Uma grande luta esta sendo travada neste exato instante dentro de mim. E uma luta terrível entre dous lobos.

Um dos lobos é mau – ele é medo, raiva, inveja, decepção, arrependimento, ganância, arrogância, auto-piedade, culpa, ressentimento, complexo de inferioridade, mentiras, orgulho, complexo de superioridade, ego.

O outro lobo é bom – ele é alegria, paz, amor, esperança, bondade, serenidade, humildade, benevolência, amizade, empatia, generosidade, compaixão e fé.

Esta mesma luta esta sendo travada dentro de cada um de nós e de todas as pessoas do mundo”. Depois de refletirem uns segundos uma das crianças perguntou: avô, mas que lobo vencerá?

Ao que o velho índio respostou: “Aquele que tu alimentes”. Desgraciadamente durante muitos decénios as nossas sociedades alimentaram o lobo mau. 
Lembro que em 2007 os gigantes mundiais das finanças viraram em choque. Anteriormente durante a década de 80 e 90 obrigaram a todas as sociedades ocidentais a suprimir lentamente o Estado Providência ou Estado do Bem Estar, enquanto as grandes multinacionais faziam seu agosto comprando a saldo bens públicos, debilitando o poder sindical e operário, reduzindo salários e prestações sociais... Lembro que em 2008 quando a banca não pode seguir vomitando riqueza multiplicada por milhões no casino global bursátil, e depois quando o Deus Mercado decidira atirar ao lixo da história pacotes e pacotes de ações tóxicas... os senhores da banca acudiram aos governos, para que estes fizeram entender às sociedades, que era necessário socializar as suas enorme perdas ou do contrário os sistema quebraria, e todos nos encontraríamos ante um cenário de apocalipse... Lembro então, com bom senso, os governos representantes do poder popular, com a conivência implícita ou explícita das sociedades (todos devemos assumir nossas responsabilidades, em aquela altura, exceto algumas vozes críticas, a majoria social não protestou ou manifestou discórdia), decidiram assumir enormes défices públicos para engolir, apagar dos balanços negativos os montes de défices privados e a falta de liquidez bancária...

Um tempo depois, mais sobrepostos do susto, esses benevolentes senhores cujas perdas foram socializadas, começaram por atacar sem piedade as dívidas soberanas, por segundo suas palavras serem insostíveis; obrigando assim aos Estados a pagar-lhes um pouco e cada vez mais pelos empréstimos que estes Estados contraíam, enquanto a sociedade seguia a pagar estes excessos, por meio de aumentos diretos e indiretos nos impostos, e recortes nos programas sociais. Esquecidos estes senhores de que com nossos recursos, hipotecas, casas, dias de férias, pagamos suas loucuras, agora obrigavam de novo a toda a sociedade a entregar-lhes, via resgates ou planos de austeridade, a pouca empresa pública que nos ficava, a sanidade a educação, e dizer o nosso presente e o futuro dos nossos filhos; ganhado pelo suor e mesmo, as vezes sangue, dos nossos pais e avôs. Esse patrimônio publico que nos deveríamos haver resguardado e defendido com amor, bondade e gratitude aos que nos precederam, e tanto lutaram para donar-nos estas melhoras sociais. Ante tal situação de falta de futuro para nossos filhos, milheiros de moços e moças portugueses, a geração melhor preparada do seu país, tal vez em séculos, saiaram a rua para reclamar o futuro que lhes foi roubado, baixo o nome popular de “Geraçao à rasca”. Poucos meses depois a mesma geração jovem do Estado Espanhol, num movimento mais prolongado no tempo, mais consolidado, menos espontâneo e melhor organizado, reclamava aos berros igual que seus amigos portugueses, e todas as línguas e identidades das que se compõe este estado, o mesmo direito a viver, esta vez baixo o título de “Indignados”.

Agora, este fim de samana passado, acordamos diante da televisão, com as imagens de extrema violência, procedentes de Londres. Enquanto a “geraçao à rasca” e “os indignados” são formados, em sua gene, por grupos de estudantes universitários, com diferentes e divergentes, formações académicas; os jovens e adolescentes londrinos, surgem dessa massa mais dorida da sociedade, dos locais e cantos mais escuros, dos becos ignorados das nossas sociedades... Filhos, em sua majoria, de imigrantes de 1ª ou 2ª geração, “os ignorados” são o fruto de decênios de capitalismo selvagem, que levou consigo o desaparecimento dos modos de vida tradicionais, pesqueiros e agrícolas, que quase desde o Neolítico, sustentava a maior parte das populações do planeta; e que foi removida para os subúrbios das cidades, ou desde os pólos mais pobres da terra às metrópoles mais opulentas; enquanto as grandes companhias multinacionais ficavam com hectares de terra produtiva para consolidar seu império alimentício; ao que os migrados perdiam a independência alimentar, a identidade, a língua, a cultura e ética milenar baseada na Terra e nas formas de vida a ela ligada (os galegos e galegas sabemos bem deste drama migratório); tudo embrulhado num lindo pacote comercial, como um bilhete a ser pago para embarcar no navio do progresso.

Nesta altura do conto, estes filhos e netos da miséria, na sua versão mais escuro, mais cheia de maldade, ódio, raiva contida... destila pelas ruas de Londrés aquilo que levam dentro e alimentaram, desde quase o berço, esse lobo mau, que tanto nos assusta. São os filhos da dor: a dor da destruturaçao familiar, a dor do desemprego, a dor do menospreço, a dor do racismo, a dor do álcool, a dor das drogas, a dor dos video jogos violentos, dos filmes violentos, do fracasso escolar. Da perda de velha ética que seus pais trouxeram na sua viagem sem regresso do mundo rural, da dor falta duma ética moderna que nós “os civilizados” pudéramos legar a eles... Da imensa dor da deformação e de não poder-se reconhecer como um ser realizado. Da dor que impediu a esses seres humanos, humanizar-se... Encontrar seu potencial e ter possibilidades de realizar-se... da dor que por dentro ainda sente dor... 
Tirando algum centro para jovens, que sobrevivia nestes barrios, e que trás as políticas de austeridade, foram encerrados; ninguém lhes prestava a mínima atenção a estes jovens, rapaces, raparigas e crianças... Eram ignorados, suas vidas não eram as nossas, seu mundo escuro, não era nosso mundo, seu bairros não eram os nossos... Eram para nós um espelho oposto a nossa realidade. Quiçá o custo do mantimento destes Centros Sociais onde esta “mocidade ignorada” podia falar e ser escutada, tinha um custo real muito inferior a um novo avião de combate, a um míssil ou dous dessas decenas ou centos de misseis que a diário o exército da Sua Majestade, junto aos outros exércitos aliados, atiram para libertar populações oprimidas pelos tiranos que abondam neste mundo por diante, levando bem alçada pelo planeta adiante a bandeira da democracia. Mas o Primeiro Ministro Britânico, como outros dos seus predecessores, esta em Guerra contra o Mal, ali onde ele surgir. Assim que estes jovens malandros, não seriam melhor tratados, que outros bárbaros delinquentes, desses que há por esse mundo fora, todavia sem civilizar. Também a estes bárbaros das nossas cidades vamos a civilizar, e como bem diz o Primeiro Ministro Cameron, sobre eles cairá todo o pesos da lei. E esse pesos não é pequeno.

Desta forma sabemos, pelas próprias declarações feitas, por este premier, desde o 10 de Downing Street, que ele é um democrata e como tal esta preocupado com os problemas ocasionados aos cidadãos honestos. Sabemos também que uma forma democrática de solucionar e violência contra a sociedade é punir aos culpados, enquanto a isso todas as pessoas de bem condizem com o Sr. Cameron.

Mas este caracter democrático fica em entredito quando se trata de fazer recair o mesmo peso da lei sobre os malandros das finanças que tanto terrível dano têm causado as nossas sociedades. Em estes casos os malandros das finanças nem são detidos, nem sequer punidos, por jogar toda nossa riqueza acumulada em gerações: desde nossos aforros, a nossas pensões, as nossas hipotecas e casas, a nossa capacidade para comprar comida, roupa, calçado, ir de férias, a perda da nossa sanidade gratuita e a introdução já em muito países do co-pago, a perda via privatizaçoes do nosso património social: sectores da sanidade a ser privatizados, da educação, dos concelhos... Em fim punidos esses senhores das altas finanças por hipotecar nosso presente e o futuro dos nossos filhos.

Por esta gigantesca violência gerada pelos altos responsabeis financeiros, e pelos jogadores do casino global, contra toda a sociedade, os nossos democráticos líderes não tem nada a dizer, nada a fazer. Alem de lamentar-se pelo mal que está a reagir o Deus Mercado. Assim as cousas, e enquanto os banqueiros não assumam suas grandes perdas e as perdas geradas a sociedade, o lobo mau seguirá a ganhar a guerra global, e a escuridão seguirá vigorar por todo o Ocidente, alastrando com ela a toda nossa sociedade. Tempos escuros se avezinham e os corrompidos em ação, pensamento e alma, seguem comandando e organizando nossas vidas. E tempo pois da sociedade acordar e reclamar um acordo global, entre todos os povos, todas as línguas, todas as raças. Um governo global, uma moeda global, uma ordem nova, onde todas as cores e todas as culturas estejam representadas.

Pode parecer utópico, mas é melhor que o caos que se avezinha ou as guerras. 

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