05:10 h. Domingo, 21 de julio de 2019

O centrismo oscilante

José Manuel Barbosa | 09 de enero de 2011

Tenho dous amigos com os que partilho o gosto pela política. Um deles procede ideologicamente duma família de centro-direita e o outro recebeu uma educação e uma tradição socialdemocrata de esquerdas. Até há pouco tempo quando nos juntávamos os três as discrepâncias se faziam muito manifestas e as discussões nunca tinham fim.

Tenho dous amigos com os que partilho o gosto pela política. Um deles procede ideologicamente duma família de centro-direita e o outro recebeu uma educação e uma tradição socialdemocrata de esquerdas. Até há pouco tempo quando nos juntávamos os três as discrepâncias se faziam muito manifestas e as discussões nunca tinham fim.

Deve haver uns dez anos aproximadamente em que os posicionamentos dos meus dous amigos se vêm achegando, se moderam o um com o outro, e chegam a pontos em comum muito interessantes e difíceis de prever por mim em tempos passados, pois já levo com eles mais de trinta anos e nunca pôde imaginar tal achegamento. Agora vejo neles o afã de concordar para solucionar os problemas da vida diária. Antes, contrariamente, o dogma estava sempre presente e primava mais “a priori” o posicionamento ideológico de cada um do que arranjar a vida dos cidadãos. Ultimamente o assunto já não é tão ideológico como era até uns anos. Agora é mais prático mas também é certo que o que faz que cheguem a pontos de encontro é que os dous têm a ideia acertada de acreditarem que é na Galiza onde se deve e se pode desenvolver a ação do seu ideário.

Estou a ver com surpresa que eles acham que o que faz falta é solucionar os problemas dos administrados e não impor um pensamento ideológico por cima das realidades e dos contextos globais nos que estamos inseridos. Assim às vezes será necessário –dizem eles- aplicar soluções liberais para criar riqueza e outras vezes soluções mais socializantes para repartir essa riqueza.

Como eles são galegos e vivem na Galiza, ambos os amigos chegaram à conclusão de que os seus projetos e ideários tinham de ser aplicados na Galiza, não na Polónia, na Guatemala, ou na Austrália onde já há gente inteligente que pode e deve trabalhar pela humanidade. Acham igualmente que os interesses dos andaluzes, ou dos madrilenos, ou dos catalães ou dos murcianos não são os nossos interesses porque as fontes de riqueza, os meios de produção, as pessoas com as suas diferentes formas de fazer e de perceber as cousas e as vias de expansão económica não são as mesmas nem geograficamente, nem historicamente, nem também os amigos ou parceiros com quem possamos partilhar interesses são os mesmos, ainda que sim possamos fazer negócios com todos e cada um deles forem donde forem, que essa é a finalidade: trocarmos riquezas materiais, culturais, linguísticas, espirituais ou de outros tipos, e portanto, enriquecer-nos todos como conjunto.

Estes amigos meus deixam-me surpreso muitas vezes quando falam de soluções viáveis que não se levam a cabo pela mediocridade dos políticos que temos ou por falta de imaginação ou iniciativa. Eles falam de cousas como estas:

· Para eles solucionar problemas é adaptar o horário galego ao fuso horário que lhe é natural. O mesmo da Irlanda, de Portugal, das Ilhas Canárias..., pois como comentávamos anteriormente em outro artigo (ver “Por uma hora galega”) a poupança passava-se dum 1% de como está agora até um 10% de mudarmos para a hora que nos é natural, como nos informava a CNRHE (Comissão Nacional para a Racionalização dos Horários Espanhóis).

· Para eles solucionar problemas seria criar uma Bolsa de Valores na Galiza. Ideia esta que já se debatia na época do Fraga mas que ainda ninguém foi capaz de levar a fim por veto dos diferentes governos de Madrid. Mesmo é uma aposta positiva para o próprio Estado Espanhol que vê com muita menos inteligência as cousas do que, por exemplo a França, a qual pode virar os seus interesses do Mediterrâneo para o Atlântico se lhe convier. Contrariamente, a Espanha só está centrada nos seus interesses mediterrâneos sem tomar consciência de que a faixa atlântica abre portas económicas que teimosamente Madrid se empenha em fechar tornando em absurdos os políticos galegos que se posicionam ideologicamente próximos dos interesses do Estado. Este posicionamento negativista da Espanha em relação à Galiza abre em troca caminho a futuros (quando não já presentes) problemas de adequação e adaptação do nosso País com respeito ao Estado mas não há que dizer muito sobre os benefícios que esta iniciativa económica teria para a Galiza.

· Os meus amigos ainda sendo de posicionamentos sociais bem diferentes apoiariam a eliminação das administrações intermédias como as deputações, a divisão provincial, o elevado número de Concelhos na Galiza ainda que também apoiariam a recuperação da minguada e decrescente população galega dando-lhe às freguesias ou paróquias rurais a entidade jurídica própria dentro de Concelhos de tamanho comarcal com serviços adequados para a população se manter servida.

· Solucionar problemas deste País para os meus amigos passa pela recuperação da população galega por meio da organização territorial histórica paroquial e comarcal que ajudaria a que esta tivesse um maior peso dentro do Estado e por tanto pudesse ter mais poder de decisão para poder defender o que ninguém defende por nós, chefiando a Galiza a reivindicação dos interesses atlânticos de forma que viessem connosco os apoios de outros territórios com as mesmas necessidades.

· Também arranjar necessidades galegas para os meus amigos seria o reconhecimento da unidade linguística galego-portuguesa com todos os benefícios que isto traz, e não só culturais e de identidade, mas também políticos e económicos (ver “Há muita fome no mundo”)

· Eles concordam em que para que tudo isto fosse avante seria necessária uma organização partidária galega completa, própria de qualquer país normal, com partidos de direita, de centro, de esquerda, de todo tipo de organizações de defesa do país independentemente dos seus vínculos ideológicos conservadores, liberais, democrata-cristãos, social-liberais, socialdemocratas, socialistas, comunistas, anarquistas, ambientalistas, verdes ecologistas, etc... pois na sociedade é que se dão todas estas possibilidades e a dia de hoje a oferta partidária na Galiza é muito limitada para defender o País fora doutros posicionamentos que não sejam socialistas ou comunistas. 

· Segundo eles, a Galiza como País necessita relacionamento com o exterior, não só com outros territórios da Espanha e para isso comentam de virar os nossos interesses de cara a três direções: a) o mundo atlântico europeu, céltico e britânico por proximidade, vínculos históricos e comunidade de interesses económicos; b) o mundo lusófono por outro, por proximidade cultural e identidade linguística, que abre portas económicas de grande poder tanto mais desde o momento em que a lusofonia começa a ter peso no mundo graças ao Brasil e c) o mundo hispano-americano com o qual temos séculos de relacionamento por ter sido destino da nossa histórica emigração a qual poderia ser um importante suporte para uma Galiza forte.

· Ainda, comentam os meus amigos, haveria um quarto ponto de relacionamento exterior e é este o apoio a uma Europa realmente unida posicionando-nos pouco a pouco com as potências emergentes, e nomeadamente com o Brasil para evitar cair no grande abismo que estão a construir os Estados Unidos que teimam em produzir dólares sem limite inflando a bolha que criou a crise presente e agravando-a mais cada dia que passa até que acabe por fundir aos próprios norte-americanos e com eles a esta servil Europa que não sabe dar-lhe uso à sua união.

· Mas também, como último elemento que transcende e une o pensamento polar dos meus amigos é o facto de podermos ter na Galiza políticos com mente clara de estadistas, que pense em grande e não tenha medo a jogar com força e inteligência, não politiquinhos cosmopaletos aderidos a Madrid por fidelidades servis ou falsa alternativa a eles. Não nos seriam de utilidade galeguismos que nem têm consciência da globalidade onde estamos inseridos, nem sabem safar do poder centrípeto que nos envolve numa inércia pasmona que nos anula e que nem dão jogo a outras alternativas galeguistas que não sejam as suas.

Como os meus amigos provêm, um do centro-direita e o outro da esquerda e chegaram a conclusão de que às vezes era necessário apoiar o elemento privado e outras o assunto público segundo convier, um que isto escreve também chegou a um ponto que graças à curiosidade que criou em mim tal processo evolutivo, quis pôr-lhe um nome a este caminho central e centrado. Central por ser esse o ponto do espetro político ao que tendem. Um lugar, uma localização igualmente distante dos dous extremos, querendo e vendo necessária essa oscilação da balança como fórmula que achega a um ou ao outro ponto, segundo convier, com um equilíbrio em movimento que visa evolução. Igualmente é centrado porque a ponta do compasso está sempre posta na Galiza. A isto, deu-se-me por chamar-lhe o “Centrismo Oscilante”.

 

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