03:08 h. Viernes, 19 de Abril de 2019

O estranhíssimo e dificílimo labor de ser coerentes

José Manuel Barbosa | 19 de Diciembre de 2010

Concordaremos o leitor e eu em que a cultura é um bem precioso e prezado que numa sociedade civilizada devemos gerir com arrumo, respeito e cuidado, e concordaremos em que a cultura é a manifestação humana de aquilo que faz que o homem se diferencie dos animais, quer dizer: a expressão elaborada da inteligência.

Concordaremos o leitor e eu em que a cultura é um bem precioso e prezado que numa sociedade civilizada devemos gerir com arrumo, respeito e cuidado, e concordaremos em que a cultura é a manifestação humana de aquilo que faz que o homem se diferencie dos animais, quer dizer: a expressão elaborada da inteligência. Seguramente também estaremos de acordo em que aquelas pessoas que se chamam artistas, que cultivam qualquer aspecto da arte, poderão ser consideradas cultas, e que a cultura dum país surge da criação popular mas enobrece-se, refina-se e enriquece-se com o trabalho intelectual daquelas pessoas que têm essa capacidade. Não todo o mundo participa da elaboração da cultura, por razões muito mundanárias; já o diziam os latinos “primum vivere, deinde filosofare”. Em fim, nem todo o mundo pode, nem todo o mundo quer, nem todo o mundo sabe.

Dar-me-ão provavelmente a razão se suponho que um pintor instruído nas belas artes tem o dever moral, como pessoa culta que é, de conhecer certos aspectos básicos da literatura; como o literato de conhecer as manifestações mais salientáveis da pintura ou do conhecimento científico; o cientista deve saber elementos de filosofia para guiar a sua pesquisa e da mesma forma dou por suposto que um músico, cultor da música galega, e portanto, por definição, galeguista, tem o dever de conhecer certos aspectos básicos da cultura da nossa terra, úteis para o seu trabalho, como por exemplo a língua na que tem de criar, para além de certos aspectos formais com os quais apresentar-se em público.

Bom, pois há uns dias fui a um concerto de um determinado grupo musical galego com certa fama num lugar próximo a Ourense. Ali ouvi cantar num galego “a-normal”, entendendo por “a-normal” que não tinha norma, ainda que esse “sem norma” também poderia significar “comum” do ponto de vista do uso habitual da gente da rua. O que vou comentar é que ali se cantou uma canção dedicada a um lugar de fala galega, mas administrativamente exterior à CAG (Comunidade Autónoma Galega). Esse lugar é concretamente dos Ancares e o texto criado pelo grupo foi feito em castelhano –quero perceber que por respeito a uma terra que legalmente não é Galiza-, e onde se representou aliás uma canção de Afonso o Sábio apresentado como “Rei da Espanha”.

Não, não vamos confundir as cousas, não é a minha vontade ir de radicalóide e intolerante, não. Vamos deixar dito que posso compreender e mesmo aceitar - embora não partilhar- toda a legalidade vigente em matéria linguística e histórica, mas acho que ao respeito tenho de dizer umas cousas:

1- Não posso partilhar o facto de um grupo musical que vende cultura, usar um veículo de comunicação e criação como é a língua dos galegos sem qualquer cuidado. Usá-la de qualquer jeito, cheio de castelhanismos reconhecidos de qualquer ponto de vista, acho que não é próprio de pessoal que é um modelo cultural; eles são imagens vivas a seguir porque estão num cenário à vista da gente. Acho que as pessoas ilustradas, as pessoas cultas - e incluo nesta definição por razões óbvias e neste grupo a estes músicos do conjunto musical ao que não nomeio-, devem sachar na leira da língua para que esta dê as suas flores, que é do que se trata como parte das suas obrigas profissionais, e vocacionais, e não estou arrimando a sardinha à minha brasa, não estou a insinuar que tenham de usar necessariamente A MINHA NORMA, só estou a reclamar que usem um mínimo de correção. Não se pode tolerar a forma “carretera” ou “estades nas sillas”, ou “libertá”... por dizer algumas jóias. Também é certo que se usarem um galego culto e universal a gente ia vê-los como modelos de a seguir. Lembro que quando usaram o castelhano foi seguindo um modelo totalmente académico ao cantarem nessa, também, extensa e prestigiosa língua, e não na variante dialectal de Ribera de las Hurdes, com todo o meu respeito para essa variante popular. É o dever do grupo musical apresentar um mínimo de cultivo na língua da qual estão sendo “cultores” nesse momento, não só modelos musicais, a não ser que só se dedicarem à música instrumental.

2- Também não vou dizer que tenham a obriga de cantar em galego a uma comarca como os Ancares ou o Berzo que embora administrativamente exteriores à CAG, têm como uma das suas línguas naturais a língua de Rosália e Camões, falada justamente nos Ancares leoneses que é a zona concreta à qual dedicavam as suas letras com todo o amor e toda a sua arte musical que é muita. Vamos aguardar com boa fé algum artista de Astorga, ou de Leão, ou Samora, ou de Ovedo, que cantem em galego às regiões ou comarcas e ao público das zonas limítrofes por respeito a aqueles asturianos, leoneses ou samoranos que do Návia, do Cua ou da Seabra para cá falam a nossa língua. Pode ser que alguma vez vejamos a essas pessoas assumirem a responsabilidade de lutarem, trabalharem e viverem para lhe darem luz, culto, uso e dignidade a uma língua que não é a deles, mas vamos aguardar, melhor, sentados porque temos muita boa fé, embora também podemos aguardar que isso o cheguem a fazer os próprios músicos do grupo em questão, aos quais o seu compromisso com a cultura do país lho reclama directamente e parece-nos mais normal.

3- Aliás, não quero acabar este artigo sem deixar de afirmar que ninguém tem a obriga de sabê-lo todo, nem ninguém tem de saber que Afonso o Sábio não era rei da Espanha, entre outras cousas, porque a Espanha como reino ainda estava um pouco longe de existir como tal. O Rei Sábio era apenas rei de Toledo e Castela que era todo um, e de Galiza e Leão que também era todo um, mas também não vamos exigir-lhes a excrupulosidade e a meticulosidade do sério professor que reclama dos seus alunos um mínimo de rigor e zelo, não, também não. Chegava com que tivessem dito simplesmente que era Rei de Galiza. Se isso disserem não contavam nenhuma mentira, embora fosse rei legítimo de outros territórios peninsulares. Estariam dando uma boa imagem de pessoas ilustradas e dignas, cultoras das artes e das letras e comprometidas com a cultura... e com a cultura deste país, em fim, dariam imagem de galeguistas de pró.

 

Más acciones:
Facebook