18:52 h. Sábado, 21 de Octubre de 2017

Xornal Retrincos

Arménia e Galiza: nações leais.

Professor

José Manuel Barbosa | 05 de Junio de 2011

A Turquia que perdeu a primeira guerra mundial foi uma Turquia convulsa que acabava de perder mais do 90% do seu território nos Balcãs e mesmo estava chegando o momento em que podia perder as regiões da Anatólia ocidental povoada pela minoria grega autóctone e a Arménia na parte mais oriental da Ásia Menor.

A Turquia que perdeu a primeira guerra mundial foi uma Turquia convulsa que acabava de perder mais do 90% do seu território nos Balcãs e mesmo estava chegando o momento em que podia perder as regiões da Anatólia ocidental povoada pela minoria grega autóctone e a Arménia na parte mais oriental da Ásia Menor.

Quando chegou ao poder Mustafa Kemal, autorebatizado de Kemal Ataturk, o novo estado turco aplica uma brutal limpeza étnica sobre a Grécia anatoliana expulsando os helenos para o continente europeu e para as ilhas mediterrâneas, assim como uma selvagem matança de arménios nos territórios orientais do Cáucaso até o lago Van. Nessa matança morrem mais de um milhão e meio de pessoas e ainda um grande número de deportados, abandonados no deserto à sua sorte acabando como carniça para os abutres, grande número de pessoas violadas, abusadas, expropriadas e mesmo multidão de mulheres escravizadas para fazerem parte dos haréns dos poderosos turcos. E tudo isto sendo os arménios considerados “Millet-i Sadika” pelos turcos, quer dizer, “nação leal”, pois eles não geravam conflitos nem problemas apesar de terem menos direitos do que outras nações do Império otomano.

Uma vez eliminados os arménios, o seu património foi destruído ou abandonado à sua sorte e em todo caso esquecido e desprezado por não ser turco. Preferiram a perda económica e cultural que isso supunha a integrá-lo dentro do seu acerbo cultural. A dia de hoje se viajarmos à antiga Arménia otomana -hoje território ocupado pelos curdos- ou à costa ocidental anatoliana veremos os monumentos arménios e gregos da costa do Egeu totalmente esquecidos e descuidados, praticamente perdidos para desfrute do ser humano e para a arte. Nunca veremos aos guias turcos dizer que são gregos ou arménios reconhecendo-lhes uma origem não otomana. São estes factos fruto duma forma de se reafirmarem como nação turca depredadora e totalmente fora de todo conceito humanista.

Por outra parte, na Espanha do século XXI acontece algo parecido com a nação norte-ocidental da península. E digo parecido porque não é igual. A situação política de hoje no Reino da Espanha não é a situação do Império Otomano há quase cem anos onde a falta de democracia formal, as desigualdades no que diz respeito aos direitos das pessoas, o desrespeito à dignidade do ser humano e o contexto islámico não são assimiláveis à aceitação da democracia e dos valores ocidentais nos que vivemos ainda que sejamos capazes de chegar à indignação que move a muitas pessoas que manifestam o seu protesto com acampadas nas praças mais importantes de várias cidades do Estado. Aqui não há sangue nem depredação mas há um desequilíbrio gerado por uma falta de compreensão à nossa questão nacional à que nós como “nação leal” favorecemos.

Vou centrar-me só no aspecto cultural e nomeadamente ao que se refere ao património e a sua desfeita, não sei se controlada ou não, mas sim consentida por todos.

A historiografia oficial espanhola ignora e desrespeita totalmente o passado da Galiza. Ela simplesmente não existe e o que há fica vinculado com o mundo identitário castelhano e mediterrâneo, sem empregar muitos esforços em reivindicar um mundo justamente identificado e pretérito que poderia gerar um grande benefício a todos tanto do ponto de vista económico como geoestratégico, ainda no caso de ser assumido pelo mais profundo espanholismo.

À Galiza nega-se-lhe o seu passado céltico e os seus vínculos históricos com as Ilhas Britânicas. Daqui partiu a repovoação das Ilhas em épocas imediatamente após-glaciares como parecem demostrar os dados genéticos. Ela tem sido o primeiro reino da Europa medieval ainda existindo o Império Romano, o primeiro em emitir moeda própria, o primeiro em legislar, administrar e construir um Estado monárquico com o cristianismo católico como referência. Galiza foi a criadora da mal chamada “Letra Visigótica”, da primeira arte pré-románica com o arco de ferradura que oficialmente se denomina “visigótico”.

Com o nosso País cometem-se certas injustiças como o não se lhe reconhecer o nome de “Reino de Galiza” ao território do N.W. hespérico em épocas altomedievais. Em troca é denominado de “Reino de Astúrias” ou “Reino de Leão” ainda que haja documentação por toda a Europa que é evidenciada pelos historiadores do velho continente.

À Galiza nega-se-lhe a sua identidade linguística vinculada ao mundo conhecido internacionalmente como lusófono. Aguentamos silêncio histórico quando fomos protagonistas principais da Idade Média peninsular; temos de aguentar a mentira sobre a nossa identidade e a nossa memória porque o supremacismo castelhano destruiu documentação, manipulou informação e educou a várias gerações de galegos na ignorância e no auto-ódio e a muitas gerações de não-galegos na consideração de que ser galego era ser um compêndio de defeitos “no pior sentido da palavra”. Tudo isto para garantir e justificar a hegemonia de Castela sobre a península em geral e sobre a Galiza em particular evitando que a justiça histórica fosse crua demais com o imperialismo castelhano e benévola com a Galiza. Com isto continuamos a permitir que um território quase desértico do centro da penínsular continue a vampirizar a periferia hespérica rica material e espiritualmente.

A falta de atenção e reconhecimento é a razão principal pela qual na Galiza haja tanto património pré-histórico, proto-histórico e castrejo destruído. Se não é para edificar é para fazer estradas ou para plantar as ventoinhas dos parques eólicos ou se não por simples descuido. É essa a razão pela qual os lugares outrora sagrados, cheios de megalitos, hoje sejam ermos pedregosos ou lugares civilizados –no pior sentido da palavra- que dão divisas a empresas de construção ou eólicas que enriquecem a todos menos aos galegos. São lugares onde a informação científica ou as lendas existentes nos poderiam dar conhecimento do nosso passado e mesmo dinheiro e cultura. Com esta filosofia é fácil que haja incêndios que despejem e paramizem amplos territórios em regiões da Galiza que antes eram carvalheiras ou soutos frondosos para que empresas de fora venham construir chalés para os madrilenos sentirem perto um mar que os limpe das suas impurezas urbanas.

O património galego é uma fonte importante de riqueza, mesmo de riqueza em euros. Mas se o pensamento anti-galego que nos governa quer se defender de nós estragando um património que nos faria mais prósperos e por isso mais arraigados à nossa identidade e se com isso a unidade espanhola mononacional não fosse impossível, faz bem estragar tudo. No entanto, se esse mesmo pensamento se voltasse inteligente e da mesma forma que se nos considera espanhóis para que nos venham arrepanhar as nossas fontes de energia debalde ou para pagarmos os impostos a uma Espanha que não nos considera uns iguais porque há um ponto “pejorativo” em ser galegos, também poderia ser que pudesse considerar que a Espanha alcançaria a ser mais próspera, mais culta, mais civilizada e menos cavernária se soubesse incluir o património galego –o mais rico da península- como mais um elemento de importância para ser cuidado, respeitado, guardado, estudado, comunicado, ensinado, amado e desfrutado. Aliás do ponto de vista geoestratégico, a consideração do património galego poderia fazer que a Espanha se abrisse ao Atlântico, autêntico centro do mundo e centro de poder desde que a civilização ocidental se abriu passo pelo mundo.

Para o castelhanismo imperante, igual que para os turcos a Arménia ou a Grécia anatoliana, é preferível ser impresentável dum ponto de vista ético e perder milhões de euros e mesmo consideração política do que permitir que a Galiza seja mais um centro criador de prosperidade e riqueza material, cultural e política.

Castelão dizia que eram uns imperialistas fracassados, mas eu vou muito mais longe do que isso: São seres humanos imperfeitos pela sua falta de inteligência e democratas fracassados, habitantes do lado obscuro duma Europa politicamente avançada. E os galegos que são fieis a esse projeto negador da nação galaica, que tenham em conta que por muito fieis que sejamos a um Estado que não nos tem em conta nem nos valoriza, que nos empobrece e nos tira poder e prestígio não por isso vamos ser melhor tratados. Tudo o contrário; acabaremos como eles.

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